CURSO TÉCNICO VS FACULDADE – O QUE FAZER?

Como o modelo de educação do Brasil não prevê uma formação específica (exceto agora que teremos, talvez, um novo modelo de ensino médio pela frente), alguns jovens acabam se perguntando o que seria mais vantajoso e acabam colocando na balança, cursos Técnicos e superiores.

Para começar a falar sobre o tema é importante explicar o que cada um desses cursos faz e representa para o aluno.

Curso Técnico de Nível Médio: Os tão chamados Cursos Técnicos são cursos que visam à formação de um profissional com capacidade técnica e conhecimento tecnológico para reflexão e atuação, visando o entendimento de metodologias para conseguir interferir em processos de maneira mais íntima e eficaz. Em outras palavras, o aluno desenvolve conhecimento técnico embasado. Os cursos tem carga horária entre 800 a 1200 horas que geralmente se desenvolvem entre 12 e 18 meses.

Cursos de Graduação (Nível Superior): Os cursos de graduação são cursos que visam estruturar um conhecimento científico acerca da Área de estudo. Esses conhecimentos são passados de forma aprofundada para que se forme uma base de reflexão sobre a estruturação do tema. O aluno graduado deve ser capaz de compreender e elaborar metodologias pra atuar na sua área ou exercer níveis de gerência e liderança. A duração desse tipo de curso pode variar de 2400 a 4000 horas, e são desenvolvidos entre 3 a 5 anos.

 Mas e aí­, qual dos dois é melhor?

Pelas descrições acima podemos facilmente identificar algumas vantagens e desvantagens em alguns tipos de ensino, mas de fato, o que realmente deve intervir na escolha é o objetivo do aluno visto o momento da vida em que ele está inserido.

Vamos analisar algumas vantagens e desvantagens na comparação dos dois cursos:

TÉCNICO DE NÍVEL MÉDIO
Vantagens

– Formação Rápida (12 a 24 meses)
– Alta Empregabilidade
– Base de autoconhecimento
– Base sólida de conhecimentos
– Baixo investimento
– Alavancagem de carreira
– Necessita somente da conclusão do Ensino Fundamental

Desvantagens

– Não pode concorrer a cargos de nível superior

GRADUAÇÃO
Vantagens

– Conhecimento aprofundado
– Pode concorrer a cargos de nível superior

Desvantagens

– Formação mais longa (3 a 5 anos)
– Alto investimento
– É necessário ter concluído o ensino médio para se matricular.

Se você leu a tabela acima com atenção, pode ter verificado algumas coisas que podem parecer surpreendentes a um primeiro olhar.

Como apontado, realmente, a chance de arrumar um emprego na área de atuação no ensino técnico é muito maior do que no ensino superior devido, principalmente, a elevada quantidade de vagas e à  escassez de mão de obra. Abaixo estão alguns artigos que salientam esse fato:

– Entre os profissionais mais difíceis de contratar, operários e técnicos aparecem no topo da lista (BBC, 2014)

Além disso, é sabido que qualquer empresa em expansão irá aumentar suas vagas de trabalho proporcionalmente às equipes. Por exemplo, em uma empresa onde um Engenheiro Quí­mico seja responsável por 5 técnicos em química, uma equipe a mais significaria um acréscimo de 5 vagas para técnicos contra o acréscimo de apenas uma vaga de Engenheiro.

E será que isso significa que as vagas de emprego que existem são ruins? Definitivamente NÃO!

Pela função desempenhada, a remuneração do técnico já é bem acima da média brasileira e algumas vezes chegam a exceder as de nível superior. Veja abaixo!

– Salário de técnico é maior que o de graduado em diversas Áreas (Folha, 2016)

 Mas afinal, porque a maioria das pessoas pensa em ir direto pra faculdade?

Sempre existiu no país um paradigma social que coloca no altar a formação superior. Esse prestígio exagerado já é inato de nossa cultura que desvaloriza o trabalho manual. Esse paradigma acaba por criar um desprestígio pelo ensino técnico, quando na verdade este deveria ser visto como a principal formação para aqueles que desejam voltar sua vida para o mercado de trabalho e não para o conhecimento científico. Esse traço da nossa cultura educacional é facilmente visto quando comparamos a proporção de alunos formados no ensino profissional no Brasil que é de apenas 8,4% a de países desenvolvidos como Alemanha (51,5%), Finlândia (69,7%) e Áustria (76,8%).

Veja o que dizem alguns especialistas:

– Para os educadores, o interesse do aluno pelo ensino técnico vai crescer na mesma proporção em que se combater a falsa convicção de que o sucesso no mercado de trabalho está associado ao diploma no ensino superior. […] Aqui todos querem ir para a faculdade, independentemente de ter perfil acadêmico ou não, diz Hans Wagner, vice-diretor do [colégio] Humboldt. […] “A questão é econômica e Cultural. No Brasil todo mundo quer ser “doutor”, é um legado do sistema escravocrata, em que o trabalho manual ou técnico é desvalorizado”, afirma Palma. [João Cardoso Palma, professor da UNESP). (Folha, 2016)

– Marcia Almstrom, diretora de Recursos Humanos da ManpowerGroup no Brasil, disse à  BBC Brasil que o “desprestígio” do ensino técnico criou “uma lacuna no mercado de trabalho”. (BBC, 2014)

– “Existe preconceito contra a educação profissionalizante”?Isso tem a ver com a estima social para os estudos universitários”. Observamos isso na Europa. As pessoas costumavam ter ansiedade para enviar seus filhos para a universidade, considerando, erradamente, a formação profissional como uma segunda escola. Desde que a crise econômica atingiu a Europa, no entanto, isso tem mudado. Agora existe mais clareza de que os filhos estarão em melhor situação se tiverem qualificações relevantes para o mercado de trabalho, no lugar de ter uma educação teórica geral. (Folha, 2016).

Muito desse estigma também se deve a uma política de subsídio implantada na Última década. Após a implantação do FIES e do PROUni, houve um grande ‘boom’ na oferta de cursos superiores. Junto ao aumento da oferta e da concorrência vieram também as divulgações e campanhas institucionais que incentivavam ainda mais a procura do público.

E por que preferir um curso técnico?

Um fenômeno interessante que representa o contrário do que geralmente se espera de um mercado concorrido aconteceu com a educação superior. Como o aluno, na maioria das vezes, preza somente pela certificação que ele “colocaria no currí­culo” no momento de iniciar sua carreira e não pelo ensino em si (atitude que já é nativa da cultura brasileira do nosso tempo), a qualidade de ensino superior privado foi marcada por uma queda a partir de uma incessante briga por preços cada vez mais acessí­veis, no intuito de captar alunos. Os preços de algumas faculdades privadas chegaram, inclusive, aos patamares de preços de cursos técnicos. Obviamente, isso sempre ocorre em detrimento da qualidade do ensino, que irá¡ refletir diretamente na formação do profissional.

Recentemente, alguns programas políticos também estão sendo voltados para o incentivo da formação técnica no país. São exemplos desses programas, o PRONATEC, o VENCE e o FIES-Técnico. Exceto por este Último que apesar de ser regulamentado, nunca saiu do papel, os outros dois programas já vêm possibilitando a entrada de muita gente nesta modalidade.

Então eu devo, realmente, fazer um curso técnico?

Sim, realmente não há¡ nada que possa ser dito para desencorajar alguém a realizar algum curso técnico, a não ser que sua escolha seja se dedicar em estudos cientí­ficos ou artí­sticos. Para qualquer estudo com bases tecnológicas como Engenharia, Medicina Veterinária ou Administração existe um curso Técnico que vai embasar todo esse conhecimento e alavancar sua entrada na carreira.

alavancagem de carreira é um ponto crucial ao se observar as vantagens sobre esse tipo de curso. Como visto acima, as chances de se encontrar um emprego na área técnica são muito maiores e sabemos de antemão que a melhor maneira de conseguir um bom emprego, é começando de baixo. As empresas também sabem disso. Isso porque a contratação de um funcionário externo a um cargo de gerência, por exemplo, envolveria muitos treinamentos e um alto investimento em recrutamento e seleção. Na maioria dos casos, é muito melhor promover quem já “é de casa”.

Essa promoção, é claro, deve ser mérito do próprio funcionário que investe no seu crescimento, aprofundando seu conhecimento depois de inserido no mercado, indo, por exemplo para uma faculdade.

Para aqueles que não tenham a oportunidade de ter seus estudos pagos pelos pais, isso será possí­vel com a ajuda dos recursos levantados com a remuneração do emprego técnico, que geralmente varia entre R$ 1.400 e R$ 3.000, podendo inclusive exceder esse valor, dependendo do desenvolvimento do profissional.

Além de todo o exposto, o ensino técnico também é apontado como uma primeira chance para o aluno do ensino médio que ainda não está seguro de que carreira quer seguir, já que esse tipo de curso tem duração de 12 a 18 meses contra até 5 anos em uma faculdade e você já pode inicia-lo assim que concluir o Ensino Fundamental. Veja as reportagens abaixo:

– “Quem faz o curso técnico e depois vai fazer faculdade já sai em vantagem” […] Clara Malafaia, 21, está neste grupo. Ela resolveu cursar gestão em administração após se formar no ensino médio regular. “Não sabia que faculdade fazer. Aos 17 anos é muito cedo para decidir a profissão”. (Folha, 2016)

– “A escolha da carreira “definitiva” é uma das questões difí­ceis para o jovem em uma fase da vida de muitas mudanças e indefinições. A escolha pela formação técnica e o desenvolvimento de estágio na área dará maior embasamento para o jovem optar pela formação superior, aponta a especialista. [Fabiula Pimentel]” (Guia do Estudante, 2015)

Sobre todas as informações do cenário educacional e do que é buscado pelo mercado, podemos apontar que o ideal é que o ensino seja seguido em todas as suas etapas, passando do ensino médio para o curso técnico (ou, preferencialmente, sendo cursado ao mesmo tempo) e só depois se partisse para uma faculdade, quando o aluno já estivesse seguro sobre sua carreira e sobre seu desenvolvimento. Com isso, muitos encontrariam caminhos que mais se enquadram em suas profissões e poderiam refletir melhor sobre a especialização de suas carreiras, dando a importância que desejam aos diversos fatores envolvidos.